Um segredo que ninguém, ninguém conheça.
Caindo, caindo, caindo.
Não podemos fazer as coisas voltarem a ser o que eram.
Não importa quanto nós cortemos esses pecados….
~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~
No Hotel só conseguia pensar no que tinha acontecido…tinha o plano…mas também tinha medo…não queria que nada acontecesse a seus pais e a Túlio. Sozinha passou o resto do dia pensando…acabou adormecendo.
O sono era profundo, estava cansada, exausta mentalmente. Já era noite avançada quando deu um pulo da cama…tinha sonhado com sua amiga. Um sonho estranho, sem sentido, e bastante assustador. Suava frio, garganta seca, levantou-se e foi beber um copo d’água. Ao cruzar a salinha do apartamento levou um susto, parecia um fantasma…procurou o interruptor e clareou o ambiente, não tinha ninguém. Seria um sinal? Um aviso? Confusa deitou-se no sofá mesmo, e novamente adormeceu deixando o copo d’água entornar em seu corpo.
Eram quase meio dia quando saiu do Hotel…malas prontas…rosto fechado…ar de adeus. Estava decidida a deixar para trás a cidade de sua infância…e com ela suas lembranças e momentos felizes…estava triste…mas era o melhor a ser feito. Foi desperdir-se de todos…passou de casa em casa…procurou por Túlio, mas ele não estava na cidade…tinha ido resolver um problema para seu pai na cidade vizinha…iria embora sem dar adeus ao único amigo que lhe restara.
O ônibus sairia as 16 horas…ainda dava tempo de ir ao cemitério para um último encontro com sua amiga querida. No caminho encontrou o prefeito…e lembrou-se perfeitamente dele. Era um senhor distinto…sério…educado e com uma postura exemplar…era o pai de Jair…o noivo de Elizabeth. Cumprimentaram-se…ele quis saber onde ela iria…fizeram o mesmo caminho…falaram sobre Elizabeth e de toda essa tristeza que caíra sob a cidade…até que seus caminhos dividiram-se…ele para a prefeitura e ela para o cemitério.
O prefeito Vasconcelos sempre foi um senhor muito educado…mesmo quando era para dar bronca nas crianças ele o fazia com muita discrição e sempre com um sorriso…Carmem lembrava bem que ele apesar de discreto, sempre tratava muito bem Elizabeth…e fazia gosto do casamento entre ela e seu filho. Sua marca registrada era o bigode e o cabelo sempre escondido pelo chapéu…agora ambos grisalhos…o tempo passara…mas não foi severo…ele ainda era bem apessoado…poderia conquistar qualquer mulher…mas dizia-se fiel a sua falecida esposa.
Carmem chegou ao túmulo de Elizabeth…sentiu um aperto no coração…sensação estranha…zonza…o corpo pesou…desmaiou. Acordou alguns instantes depois num quarto que não conseguia reconhecer…olhou em volta e nada familiar…até que sentiu o perfume…um perfume conhecido…o perfume da verdade. Levantou-se…andou até a porta e quando abriu viu na pequena sala o prefeito…o perfume vinha dele…ficou tonta novamente…e quando olhou para baixo na tentativa de melhorar…reconheceu os sapatos. Assustada fechou a porta…procurou uma janela e fugiu. Correu muito…correu desesperada…correu com raiva…correu com lágrimas nos olhos…até que parou…sem fôlego para mais nada…sentou-se no chão da estrada…e lá ficou por um bom tempo.
Atordoada, não conseguia acreditar no que seus sentidos acabavam de lhe mostrar. Será possível? Seria realmente possível? E o motivo qual seria? Não poderia ir embora assim, tinha que ir até o fim, não teria medo, seria forte…por sua amiga.
A noite caiu. Túlio ficou sabendo pelos moradores que Carmem não havia partido e foi ao seu encontro. A par de tudo o que tinha acontecido a ela mais cedo…ele concordou com o plano…mesmo sabendo dos riscos…mas seu amor por Carmem era maior que qualquer medo…não deixaria ela sozinha.
Dia cheio…sol quente…Carmem abre a janela e se depara com o prefeito andando pela rua…desce correndo…precisa fazer com que ele a veja…e faz. O prefeito olha para a moça assustado…mas não perde a pose de bom homem…a cumprimenta e segue seu caminho. Era isso que ela queria…agora só faltava a parte de Túlio.
A tarde estava linda…bastante agradável…daquele tipo de tarde que ela não via há muito tempo…sentou-se num banco e deixou seus pensamentos voarem…planarem em tempos longíquos…tempos felizes…de duas amigas com sonhos…de duas amigas unidas pelo sentimento mais sincero…a fraternidade…elas eram mais que amigas…sentiam-se irmãs. Com o coração apertado…entristecido pela saudade de alguém muito amado…Carmem olha para o relógio e percebe que a hora estava avançada…eram 18 horas. Estava chegando o momento.
Foi para o hotel…tomou banho…arrumou-se…e como uma pobre e indefesa donzela…vai sozinha até o restaurante mais afastado da cidade…queria espairecer…sentir a noite em seu corpo…sabia que seria seguida…mas dessa vez seria diferente. A poucos metros do pequeno restaurante sentiu a sombra que a seguia se aproximar…sem olhar para trás…entra na primeira rua de esquina que encontra…e fazendo como que em zigue-zague…sente que o perseguidor continua em sua cola…perfeito…é isso mesmo…continue Carmem…continue…não tenha medo. Mais algumas ruas a frente e Carmem estaria no velho casebre…aquele que tantas vezes brincou com Elizabeth e Túlio…o pequeno castelinho das princesas e do príncipe…sonhos…muitos sonhos…lembranças…muitas lembranças.
O homem de repente se viu sozinho…onde estaria aquela idiota? Carmem tinha sumido na penumbra da noite. Sem desconfiar de absolutamente nada…o homem desavisado segue em direção ao casebre…para ele aquele lugar também tinha algumas histórias…alguns momentos tão vívidos e intensos que sua memória recusava-se a trazer a tona…seu corpo estremecia…sim…havia voltado ao mesmo lugar. Se aproxima cuidadosamente da pequena casa…seu rosto tomado de lembranças…saudade…e então se depara com algo que jamias pensaria ver novamente. Ela estava viva!
Diante daquela figura fantasmagórica…assombrado…seu grito de horror estremeceu os alicerces do lugar. Como podia ela estar viva? Ele mesmo tinha visto seu corpo ensanguentado…o tiro tinha sido a queima roupa. A figura se movimentava de um lado para o outro…vestida de noiva…e com ar de vingança…avança na direção do homem desorientado…que corre em direção a porta…trancada. Num impulso de pavor…remorso e culpa…surge a confissão.
As luzes do casebre se acedem. Surpreso…percebe que a figura vestida de noiva não era Elizabeth e sim Carmem. E só então cai em si e enxerga o que tinha feito…era o fim de sua vida. Num ímpeto de homem poderoso…faz ameaças…confirma que ninguém acreditaria nisso…que sua influência na cidade era maior que qualquer boato. Nesse instante surge Túlio…com um gravador…descontrolado…furioso…o homem parte para cima do rapaz…que conseguindo se desvencilhar…abre a porta que levava até o quarto simples da casa…e de lá…sai Jair. Sim…era o fim!
Jair…o noivo de Elizabeth…filho do prefeito…descobre que seu pai havia matado sua noiva as vésperas de seu casamento…queria entender o motivo…ele sempre a tratava tão bem…fazia gosto pelo casamento…porque tanta crueldade?
Logo chega a polícia e diante da confissão gravada e do testemunho de Jair…não haviam dúvidas…o prefeito foi o assassino de Elizabeth. Após o interrogatório…toda a verdade veio a tona. Meses antes do casamento…durante uma viagem de Jair…o prefeito e Elizabeth passaram a se encontrar com mais frequência na tentativa de amenizar a saudade que ambos sentiam de Jair…mas com o tempo…foram se afeiçoando cada vez mais…até surgir o interesse mútuo e enfim a traição. Traição dos sentimentos…do afeto…da palavra de carinho…dos votos de enterno. Viraram amantes. Incomodada com a situação…disposta a encarar diante de toda cidade esse amor que transbordava por seus poros…e infeliz por mentir e fazer Jair acreditar nessas mentiras…Elizabeth decidiu contar a verdade…mas antes se encontrou com o prefeito no casebre afastado da cidade…o mesmo casebre que foi seu castelo infantil…o mesmo casebre onde se tornou a fêmea de Jair…o mesmo casebre em que se tornou amante de seu sogro. Discordando das intenções de Elizabeth…eles acabaram brigando e no calor da discussão a fúria foi tomando conta de seu juízo…pertubado acabou atirando. Elizabeth estava morta…no mesmo casebre de toda sua vida.
Duas semanas se passaram desde a confissão e a prisão do prefeito. Jair envergonhado mudou-se para outra cidade. Túlio assumia cada vez mais os negócios de sua família…e por conta disso logo se mudaria também. Voltando para casa…com o rosto na janela do carro…Carmem não sentia o mesmo vento que assoparava em sua face no dia que chegou na sua cidade natal…sentiu uma pequena e suave brisa…que parecia um doce beijo de “obrigada”.
FIM!
((Escrito ao som de Tears i Cried - Siam Shade))